Homenagem ao lendário herói ancestral dos ingleses que deu título a um dos considerados "Cem Maiores Livros do Mundo" e tido como o mais antigo escrito em "Old English".

sábado, 28 de novembro de 2009

A ODISSÉIA GAÚCHA DO SEIVAL

INTRODUÇÃO
Houve sempre muita confusão sobre a famosa aventura empreendida por Garibaldi, objetivando a tomada da cidade de Laguna, durante a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos. Isso, porque ensinavam que os navios teriam sido transportados por terra, através das lagoas existentes ao longo da faixa litorânea que se estende desde o sul do estado do Rio Grande do Sul até, praticamente, a cidade de Laguna, no estado de Santa Catarina. Essa epopéia sempre me parecera muito estranha e mal explicada, considerando que os dois estados possuem costa marítima e esses barcos poderiam ter navegado ao invés de transportados por terra, com um enorme sacrifício das tropas já debilitadas da República Rio Grandense. Na verdade, havia outras razões que impediam o uso dessa solução tão evidente e mais simples. Vamos, nesse artigo, tentar deixar bem claras essas razões e todo o desenrolar dessa fantástica façanha.
E antes de entrar no assunto, propriamente dito, uma rápida explicação sobre os nomes dos barcos que participaram da aventura. “Seival” era o nome de um dos dois barcos ou lanchões utilizados por Giuseppe Garibaldi na tomada da cidade de Laguna, que culminou com a proclamação da República Juliana, durante a Guerra dos Farrapos. O nome do lanchão é uma alusão à vitória obtida pelos gaúchos na Batalha do Seival, em data anterior à fabricação do barco. Seival era um arroio afluente do rio Candiota, no município de Bagé, onde se travou um dos mais sangrentos combates da Revolução Farroupilha com derrota e fuga das forças imperiais. Atualmente Candiota é um município do Rio Grande do Sul e Seival um distrito de Candiota.
Há dúvidas quanto ao nome do segundo barco que fez parte da expedição. Para alguns, “Farroupilha”, e para outros “Rio Pardo”, seria o nome do outro lanchão, maior, que acompanhava o Seival na empreitada; possivelmente porque, posteriormente à tomada de Laguna, um outro barco com o nome de Rio Pardo entrou também em cena.
Os lanchões teriam sido construídos com a finalidade específica de tomar a cidade de Laguna, que constituía, à época, um porto marítimo importante e necessário, pela impossibilidade técnica da conquista do porto de Rio Grande, que foi sempre fortemente defendido pelas forças imperiais.

A EPOPÉIA NOS CAMPOS GAÚCHOS
A epopéia do Seival e do Farroupilha teve início em pleno território gaúcho. Muito tempo antes do desenvolvimento dos veículos anfíbios, Garibaldi demonstrou que um barco construído para se movimentar na água também podia andar na terra. Para chegar a Laguna e conquistá-la, proclamando a República Juliana, o chamado "herói de dois mundos" teve que colocar em execução um dos mais arrojados planos militares já idealizados em qualquer época. A história realmente começou com a construção dos barcos.
No delta do Rio Camaquã, que desemboca na margem direita da Lagoa dos Patos, a pouco mais de meio caminho entre Porto Alegre e Rio Grande, na Fazenda do Brejó, que pertencia à Dona Antônia Joaquina da Silva, irmã de Bento Gonçalves, nos galpões abandonados de uma velha charqueada, o Governo Republicano mandara edificar um pequeno estaleiro para construir embarcações com a finalidade de controlar as águas internas. Este local era considerado estratégico devido à baixa profundidade que não permitia aos navios de guerra do Império, que patrulhavam essas águas, se aproximarem muito da costa.
John Griggs, também conhecido por “João Grandão”, um mercenário norte-americano contratado pelos Farroupilhas, era o mestre encarregado de fazer funcionar o estaleiro. Era marinheiro de grande habilidade, qualidade importante na tarefa. A Lagoa dos Patos, embora ampla, é rasa, com muitos bancos de areia. Este obstáculo natural, contornado por Griggs, impediu a perseguição mais efetiva por embarcações maiores da marinha imperial, que guardavam o porto de Rio Grande.
O trabalho era penoso, a madeira vinha dos matos adjacentes e no pequeno estaleiro trabalhavam quatro carpinteiros locais. O ferro era penosamente forjado ali mesmo e a própria fazenda fornecia a cordoalha de couro trançado e os cabos de cizal necessários para armar os barcos. Garibaldi logo sentiu que com os recursos disponíveis a construção seria muito lenta. Conseguiu então que o governo conseguisse ajuda de Montevidéu, na figura de Carniglia, conhecido carpinteiro naval, com sua equipe de mestres e operários. De Montevidéu vieram também alguns marinheiros que somados a outros tantos das redondezas formaram uma tripulação heterogênea de setenta homens. Com esse auxílio extra, em pouco mais de dois meses conseguiram construir dois lanchões, aos quais deram nomes que evocavam vitórias Farroupilhas. O maior, de 18 toneladas, foi chamado “Farroupilha” e seu comando dado a Garibaldi; o segundo, de 12 toneladas, foi batizado como “Seival” e seu comando entregue a John Griggs.
Entretanto, estando as embarcações dos Farroupilhas cercadas na Lagoa dos Patos, onde as forças do Império dominavam a entrada e saída, para atingir o mar, seus barcos teriam que ser deslocados, inicialmente, por terra. E aí iniciou-se uma epopéia digna de figurar com destaque na história dos conflitos mundiais. Sobre ela teria dito Garibaldi a Bento Gonçalves, numa reunião do alto comando farroupilha:
"Não existe a menor dificuldade na expedição por mar a Laguna. Mande-me o general alguns carpinteiros e a madeira necessária para a construção de quatro grandes rodados e cem juntas de bois carreiros, para a tração das rodas, e eu farei transportar os lanchões até Tramandaí, se Deus quiser".
Na primeira semana de maio do ano de 1839 os barcos foram lançados à água e durante nove dias andaram pela lagoa à procura de presas. Finalmente nas alturas de Cristóvão Pereira encontraram a sumaca “Mineira” e o patacho “Novo Acordo”. Após um único tiro abordaram a "Mineira", mas o "Novo Acordo" conseguiu fugir. A presa foi encalhada e a sua carga dividida, conforme carta de corso que Garibaldi havia recebido. Em resposta a esse ataque o governo federal enviou para a Lagoa dos Patos, sob o comando do almirante inglês John Grenfell, quatro navios de guerra. Entretanto, não era tarefa fácil à marinha imperial apanhar os revoltosos que conheciam todos os alagados, bancos e baixios da costa. Eram guerrilheiros que, inclusive, levavam cavalos a bordo, mostrando a mesma competência, no manejo das rédeas, cabrestos e boleadeiras, que a poucos momentos demonstravam nas escotas, adriças e leme dos lanchões. Quando, perseguidos pelos imperiais, chegavam a um banco, o brado era: “À água, patos!”. Todos pulavam na água, inclusive Garibaldi e metendo os ombros no barco cruzavam para o outro lado.

Esta guerrilha náutica terminou quando o Governo Farroupilha resolveu atacar Laguna usando esta pequena frota como apoio. O governo imperial, preocupado com os acontecimentos nas águas internas, resolveu destruir o estaleiro no delta do Camaquã, retomar o forte de Itapuã e o do Junco. Contando com uma frota numerosa, foi fácil retomar esses redutos, o mesmo não acontecendo com a idéia de capturar Garibaldi. Os lanchões Seival e Farroupilha cortaram as águas da Lagoa dos Patos, fustigados pela retaguarda por Grenfell. Fugindo e despistando, Garibaldi, profundo conhecedor da Lagoa dos Patos, passa por cima do banco das Desertas, entra na Lagoa do Casamento e esconde-se dentro do Arroio Capivari, a montante da lagoa do mesmo nome, onde desemboca, a duas milhas da sua foz. Nesse local teriam camuflado os mastros com a vegetação abundante das margens e passado a executar o planejado: construir duas carretas para os barcos e levá-los até Tramandaí. Enquanto o General Canabarro requisitava na região, em segredo, duzentos bois de canga, Garibaldi reunia o material necessário, principalmente cordoalha e madeirame de embarcações apreendidas. As rodas seriam de madeira, com 3,20 metros de diâmetro e cerca de 40 centímetros de largura. As margens do arroio foram aplainadas e os eixos e rodas submergidos sob os cascos para que a carreta pudesse ser montada. Tudo pronto, atrelaram 16 juntas de boi e tentaram o início da viajada, que não funcionou e quase virou o barco. Finalmente, em 05 de julho do mesmo ano conseguiram tirar os barcos da água e iniciar o transporte por terra.
Aqui, um parêntese curioso, para quem conhece o cenário gaúcho. Os lanchões Seival e Farroupilha teriam deixado o rio Capivari no ponto onde esse rio é cruzado, atualmente, pela RS-040, cerca de mil metros antes do posto da Polícia Rodoviária de Capivari, que fica no cruzamento dessa rodovia com o início da chamada “Estrada do Inferno” (nome antigo da BR-101, mas o inferno continua). Para quem vai de Porto Alegre em direção a Capivari, há um marco logo depois da ponte sobre o rio Capivari, à esquerda, indicando o local considerado como o início da movimentação terrestre das embarcações do grupo comandado por Garibaldi.

Entre o rio Capivari e o rio Tramandaí, através de campos, areais e banhados, foram percorridos cerca de cem quilômetros entre os dias 5 de julho pela manhã e a tardinha do dia 14 do mesmo mês, sem que as forças imperiais tivessem a mínima suspeita do que estava acontecendo. Lá chegados, tiveram que preparar o terreno para recolocar os barcos na água e reequipá-los, inclusive com as armas, pois haviam deles retirado tudo o que era possível, para deixá-los mais leves durante o percurso. Após reparos rápidos que não levaram três dias, as âncoras foram içadas e os barcos foram lançados no rio Tramandaí dali seguindo para o mar, através da barra do rio Tramandaí, e para o ataque às forças imperiais que se encontravam acantonadas em Laguna.
EM TERRAS E
MARES CATARINENSES
Entretanto, a alegria da navegação no mar pouco durou, pois baixou um pampeiro (o mesmo minuano dos gaúchos) que acabou causando o naufrágio do “Farroupilha”, próximo à cidade de Araranguá. Quando Garibaldi, escapando com vida do naufrágio, conseguiu chegar à praia, perto da Pedra do Campo Bom, contou sua tripulação sobrevivente e constatou ter perdido 16 marujos, dentre eles companheiros italianos de muitas jornadas. Sem tempo sequer para lastimar as perdas, os sobreviventes prosseguiram a pé, tentando se reunir na Barra do Camacho com as forças revolucionárias que estavam indo atacar Laguna.
Enquanto isso, o Seival, com John Griggs no comando, talvez por ser um barco mais ligeiro, conseguiu evitar o naufrágio e continuou velejando até a barra do Camacho onde, milagrosamente, penetrou com a intenção de atingir Laguna pelo rio Tubarão, ao invés de penetrar por sua foz, onde se encontra o porto de Laguna.


Quando Garibaldi e seus homens chegaram à barra do Camacho, o Seival já lhe tinha adentrado. Com o auxilio de um prático local o Seival seguiu, com Garibaldi também a bordo, pelos tortuosos canais que ligam as lagoas de Garopaba do Sul e Santa Marta, até chegar ao rio Tubarão. Os imperiais mantinham sentinelas permanentes no morro da Glória instruídos para controlarem a barra do Tubarão, em Laguna, contra quem viesse do mar, pois pelo rio Tubarão só baleeiras podiam navegar. A flotilha imperial era composta dos vasos de guerra “Imperial Catarinense”, “Sant’Anna” e “Lagunense”, de dois lanchões e mais a escuna “Itaparica” e o brigue “Cometa”.
Em Laguna, enquanto os "patos" de Garibaldi atacavam por água, os homens do general David Canabarro investiam por terra. Ao verem o Seival surgir, de repente, na foz do Tubarão, na Lagoa de Santo Antônio, atacando agressivamente a nave "Sant’Anna", o pânico instalou-se definitivamente entre as fileiras imperiais. José de Jesus, comandante da "Imperial Catarinense", sentindo a derrota próxima, manda incendiar seu barco causando ainda mais confusão. Numa decisão que o levaria à corte marcial o coronel Vilas Boas, dando a batalha por perdida, ordenou retirada e o brigue "Cometa" conseguiu fugir levando para o Desterro (Florianópolis) a notícia da derrota.
A 22 de julho de 1839, os farroupilhas dominavam de vez a vila de Laguna, conquistando um importante porto para os Farroupilhas, que nunca conseguiram se apoderar dos portos de Rio Grande e São José do Norte. A 29 do mesmo mês foi proclamada a República Juliana, por não haver contiguidade com a República Rio Grandense, infelizmente de vida efêmera.
As peripécias de Garibaldi, entretanto, não pararam por aí. Cinco novos barcos da República de Piratini foram posteriormente incorporados à sua flotilha que, agora possuidora de um porto adequado, continuou a causar graves estragos à marinha imperial.

EPÍLOGO
Finalmente, na batalha naval de Laguna, dada a superioridade das forças imperiais face aos farroupilhas, quase todos os barcos republicanos envolvidos foram queimados e o “Seival” abordado pela “Bela-Americana”, porém sem nenhum tripulante à bordo. O “Seival” foi encalhado e mais tarde posto a flutuar, transformado em iate mercante com o nome de "Garrafão". Como navio mercante navegou ainda muitos anos, acabando seus dias encalhado em uma praia de Laguna. Em 1916, quando ia ser restaurado por historiadores italianos, foi queimado. Em 1945 foi encontrada uma figueira nos restos da quilha do Seival; transplantada para uma praça de Laguna ficou conhecida como a “Árvore de Anita”. Uma réplica do Seival ainda pode ser vista hoje, na cidade de Tramandaí, Rio Grande do Sul, no Parque Histórico General Manuel Luiz Osório.
Na Itália, muitos anos depois, no auge de sua fama, assim manifestou-se Garibaldi acerca de seus companheiros da Revolução Farroupilha.
“E, repassando na memória as vicissitudes da minha vida no vosso meio, em seis anos de guerra e de constante prática de ações magnânimas, como que em delírio exclamo: Onde estão estes belicosos filhos do Continente (Rio Grande do Sul), tão majestosamente intrépidos nos combates? Onde estão Bento Gonçalves, Antônio Neto, Davi Canabarro, Joaquim Teixeira Nunes e outros tantos lanceiros farrapos que não me lembro! Que o Rio Grande ateste, com uma modesta lápide, o sítio em que descansam seus ossos. E vossas belíssimas patrícias (a mulher gaúcha) cubram de flores este santuário de suas glórias.”

8 comentários:

Gilda Souto disse...

Com a memória não morre a peleia dos bravos. Nossa história é sangue peleia e bravura em busca da liberdade.Parabéns!
(Algum número nas datas, me pareceu erro de digitação, ou não?)

Nelson Azambuja disse...

Prezada Gilda:
Mais uma vez, muito grato pelo teu comentário. De fato eu tinha problemas em algumas datas e graças à tua participação pude saná-los. Por favor, quero sempre continuar contando com a tua colaboração.
Nelson.

juaorsi disse...

Meu trisavô, João Baptista Orsi, ou Giovanni Baptista Orsi, abandona a família e São Leopoldo por volta de 1831.Deixando seus negócios e posses e some. Teria sido amigo de Garibaldi cfe. relata uma tia minha aos 90 anos. Haveria a possibilidade de ele ter morrido naquele naufrágio onde 16 amigos italianos sucumbiram? ... Existiriam em algum registro o nome desses italianos que morreram no naufrágio ? ...

Nelson Azambuja disse...

Prezado juaorsi:

Muito obrigado por seu interesse e contribuição.
Como certamente viste, eu mencionei no meu artigo, o naufrágio do lanchão Farroupilha, onde se perderam 16 dos bravos soldados da Revolução Farroupilha. Infelizmente, entretanto, resposta com dados concretos às suas indagações, não sou capaz de fornecer.
Entretanto, numa curta pesquisa que realizei, num site que tem o seguinte endereço URL:

http://www.paginadogaucho.com.br/bibli/anita-06.htm

encontrei, sob o título geral:

"Capítulo VI
Aninha assistiu a invasão de Laguna"

um relato que fala sobre o assunto; um trecho desse relato diz, textualmente" o seguinte:

"GARIBALDI NAUFRAGOU PRÓXIMO À FOZ DO RIO MAMPITUBA

Fortes chuvas caíram e um temporal surpreendeu o Farroupilha na traiçoeira costa, nas proximidades do rio Mampituba, região que tem seu fundo raso e com pedras, o que a faz ser respeitada e conhecida como “cemitério de navios”. Era o dia 15 de julho, quando a frágil embarcação, com trinta homens a bordo, atingida pela violência dos ventos e das ondas, não resistiu, fazendo-a afundar. Garibaldi, após tentar ajudar seus companheiros, salvou-se nadando até a praia. No desastre marítimo morrem diversos soldados farroupilhas, entre eles os italianos que o acompanhavam, amigos íntimos, de sua absoluta confiança: Eduardo Mutru, Luigi Carniglia, Luigi Staderini, Navona, Giovanni e outros."

Como vês, segundo essa fonte havia, entre as vítimas do naufrágio, um "Giovanni". Quem sabe esse poderia ser o teu trisavô Giovanni Baptista Orsi?
Sei como são importantes essas buscas e, lamentando não poder ajudar mais, te desejo toda a sorte na obtenção de dados mais concretos.
Um grande abraço,
Nelson Azambuja.

juaorsi disse...

Muito obrigado pela atenção. Em 1831 Giovanni Battista Orsi, estabelecido com comércio e sócio do Capitão Manoel Bento Alves em São Leopoldo RS, desaparece sem deixar pistas. Ou melhor, foi encontrado documento assinado por ele em Camquã RS. No Distrato Social seu sócio fica com todos os Bens da Sociedade no Registro de Nº 01 do Livro daquele Cartório recém assumido pelo próprio Manoel Bento Alves como Escrivão, por ser um influente português. Informações orais e familiares revelam que fora amigo de Garibaldi.Depois encontro num Registro do Arquivo Nacional do Rio uma chegada de seu filho Vicente se declarando como SARDO, originário da Sardenha, como Garibaldi seria homem do mar ? ...Em seu registro de casamento em São Jose do Norte em 1812, declara-se como natural do Bispado de Narbonne(hoje França).Ele estivera no RGS, voltou com 02 filhos e depois retorna em 1826 com filhos e seus pais que estão enterrados em São Leopoldo RS. Viera à convite de D.Pedro e Leopoldina para produzir vinhos iguais aos da Europa. Estabeleceu-se em Campo Bom, São Leopoldo. Atualmente pesquisamos apoiados pela pesquisadora paulista Liz Mastrocolo, contratada por Rita Cruz que reside em Dublin e é descendente de Giovanni Baptista Orsi. A intenção é conseguir a dupla cidadania pela Rita Cruz. Agradeço e desejo sucesso nas suas pesquisas e me coloco à disposição para eventuais informações que me estejam ao alcance,
Atenciosamente,
Paulo Juarez Orsi

Nelson Azambuja disse...

Prezado Juaorsi:

Grato pela gentileza e contribuição.
Desejo, igualmente, muito sucesso em suas pesquisas.

Um grande abraço,
Nelson Azambuja

Roberto disse...

A muito pesquiso sobre o SEIVAL, como poderiam em dois meses GARIBALDI fazer dois barcos no estaleiro do rio Camaquã sem ferramentas e como dizem sem material próprio, como o Seival e o Farroupilha? COMO QUE em apenas dois dias saíram da agua e subiram em cima de rodas ? como fizeram as rodas no meio do campo ?Se éra inverno alagado, como rodaram 90 km com barcos de 18 toneladas em cima de rodas de carros de boi ?

Nelson Azambuja disse...

Prezado Roberto:
Em primeiro lugar, minhas desculpas pela demora na resposta, causada por outros assuntos igualmente importantes.
Como sempre tenho dito, minhas pesquisas e postagens visam, principalmente, a satisfação da minha própria curiosidade e ignorância. Não sou e nunca fui um historiador, que busca os detalhes através de pesquisa exaustiva, para assuntos específicos, ou sobre temas muito gerais sem se aprofundar nos detalhes. Para as minhas necessidades, uso informação existente; nos meus trabalhos jamais incluí suposições ou criei fatos ou teorias baseados nos materiais lidos, coletados e trabalhados. As tuas, se enquadram nesse tipo de dúvidas, para as quais não sei se encontrarás resposta, em algum lugar. Imagino que ao colocar tuas questões em minha postagem, a terás lido com a atenção que as tuas dúvidas pressupõem. Sendo assim, apenas posso chamar a tua atenção para alguns pontos da postagem, na tentativa de esclarecimentos que não estou certo de poder te propiciar.
No que se refere à construção dos barcos, apenas lembro que, além de contar com o concurso de um personagem (John Griggs) vindo de terras com bastante mais experiência na construção de barcos do que os nossos, Garibaldi contou também com a ajuda de conhecido carpinteiro naval de Montevidéu (Carniglia), com toda a sua equipe de mestres e operários, além de marinheiros que, somados ao pessoal das redondezas, perfizeram uma equipe de 70 (setenta) homens a trabalhar. Realmente foi um trabalho penoso, com madeira retirada das matas locais e ferro forjado, com sacrifício, no próprio local, além do couro fornecido pela própria fazenda para a armação dos barcos, que permitiu a construção dos dois barcos em pouco mais de dois meses. A fibra e a tenacidade das pessoas que trabalharam na tarefa, muito diferente do que estamos hoje acostumados a ver, talvez possam esclarecer a tua dúvida de hoje, já que a proeza dos Farroupilhas também deixou perplexas as autoridades do governo central da época.
Desde maio de 1839, com os barcos já prontos, Garibaldi havia, em reunião com o alto comando Farroupilha, mostrado a necessidade de carpinteiros e de madeira para a construção de quatro grandes rodados, além de cem juntas de bois para tracioná-los. Acabaram utilizando 6 (seis) pares de grandes rodas (três para cada embarcação) e duzentas cabeças de bois para o transporte. Nesse trabalho de montagem dos rodados e das pranchas, mais a sua colocação sob os barcos, totalmente descarregados de suas armas e munições, e a sua retirada d'água, foram consumidos quase sete dias de trabalho e ao início do dia 5 de julho puseram-se a caminho de Tramandaí, por terra. Todo esse trabalho foi realizado numa carpintaria improvisada em clareira aberta a cerca de dois quilômetros da foz do rio Capivarí, por onde os revolucionários subiram nos barcos até que não houvesse mais calado para a navegação.
Os cem quilômetros (ou noventa) do percurso até Tramandaí, foram realizados em 10 dias e os detalhes e roteiro dessa viagem são escassos. Entretanto, quem conhece a costa do Rio Grande do Sul, principalmente a estreita faixa de dunas à beira mar, de Quintão até Tramandaí, sabe que ela é povoada por lagoas de todos os tamanhos, sem ligação superficial com o mar. Isto sugere que os revolucionários tenham viajado, por terra, inicialmente para o leste, em busca dessa faixa e, posteriormente, para o norte, usando tais lagoas, parcialmente, para facilitar o transporte sobre rodas, até atingir a foz do rio Tramandaí, fácil acesso para lançar ao mar os barcos. Finalmente, talvez seja importante lembrar que os barcos de 18 e 12 toneladas, não foram transportados exatamente sobre rodas de carros de bois. Na verdade, as rodas fabricadas para o seu transporte possuíam 3,20 metros de diâmetro por 40 cm de largura, e eram ligadas por grossas vigas a funcionar como eixos. O conjunto doas rodas, eixos e barcos (vazios) é que foram puxados por dois conjuntos de juntas de bois com 100 bois para cada barco.
Esperando ter ajudado de alguma forma, envio o meu abraço fraternal.
Nelson Azambuja.